Aquisições recentes de Senior, Selbetti e Asaas colocam empresas de SC em evidência. Movimento revela estratégias de expansão sofisticadas

O outro lado do balcão: como Santa Catarina está consolidando suas compradoras de tecnologia

Aquisições recentes de Senior, Selbetti e Asaas colocam empresas do estado em evidência no mercado de M&A. O movimento revela empresas mais capitalizadas e estratégias de expansão mais sofisticadas – mas também um ambiente mais seletivo para quem busca crescer de forma independente.

Por Fabricio Umpierres,
editor-chefe rede The Builders

Durante muito tempo, acompanhar o ecossistema de tecnologia significava observar principalmente quem estava captando: a nova rodada, os investidores envolvidos, o valuation, os planos de expansão.

Nas últimas semanas, porém, o movimento mais interessante veio de outro lugar: o avanço das empresas compradoras — e o papel de Santa Catarina nesse jogo.

A Senior Sistemas anunciou a maior aquisição de sua história: um acordo de R$ 318,7 milhões para comprar a Salú, HRtech especializada em saúde ocupacional. A Selbetti fez três operações em um curto espaço de tempo. E a “rising star” entre as compradoras, a fintech Asaas, pagou R$ 150 milhões pela HelenaCRM.

Somadas à Starian/Softplan, elas formam uma camada cada vez mais visível de empresas catarinenses de tecnologia que passaram a crescer também pela via da consolidação de mercados.

Os detalhes dessas operações estão na editoria Radar de The Builders. Mas o ponto que mais me chama a atenção não são apenas os números. É a estratégia.

Empresas com caixa, escala, carteira de clientes e capacidade de incorporar novos produtos passaram a oferecer caminhos de crescimento — e também de liquidez — para negócios que talvez levassem muito mais tempo para avançar sozinhos.

Isso muda um pouco a forma de observar um ecossistema regional.

Além das rodadas de investimento

Nem todo sinal de maturidade aparece em uma nova startup criada, em uma rodada seed ou em um valuation bilionário. Às vezes, ele aparece quando empresas que nasceram e cresceram em determinado ambiente passam a comprar outras companhias, integrar soluções e reorganizar seus mercados.

O Asaas é um exemplo simbólico desse movimento: a fintech fundada em Joinville ainda carrega a expectativa de se tornar a primeira empresa catarinense da “geração de startups” a superar o valuation de US$ 1 bilhão. Mas, independentemente desse marco, a companhia já começou a assumir outro papel, o de consolidadora: a compra da HelenaCRM é a quinta aquisição de sua história e a segunda anunciada em 2026. 

No caso da Selbetti, o M&A se tornou uma engrenagem recorrente de expansão. Com sede em Joinville, a empresa chegou a 47 aquisições desde 2014 — uma média próxima de quatro operações por ano. A sequência ajuda a explicar a formação de um portfólio que hoje reúne dez unidades de negócio, com frentes que vão de infraestrutura e outsourcing de impressão a automação, dados, inteligência artificial, cibersegurança e experiência do cliente.

A Senior também não chega agora ao mercado de aquisições. A empresa de Blumenau realizou mais de 30 operações de M&A e investimentos em pouco mais de dez anos. Nesse percurso, incorporou empresas em áreas como logística, manufatura, agronegócio, gestão de pessoas, CRM e educação corporativa, além de ampliar sua presença geográfica.

E ainda não citamos a Starian/Softplan, que captou R$ 640 milhões junto à General Atlantic em 2025 para, entre outros fins, aquisições no mercado de tecnologia – o que já fazendo desde o começo dessa década.

Um mercado ativo, mas mais seletivo

O Brasil encerrou 2025 com 1.581 operações de fusões e aquisições, praticamente o mesmo volume registrado no ano anterior. O setor de tecnologia liderou o mercado, concentrando cerca de 40% das transações, segundo a KPMG.

A reprecificação dos ativos em um ambiente de juros elevados criou oportunidades para compradores com capital disponível, especialmente em tecnologia – o que ajuda a explicar o avanço das consolidadoras.

Após o ciclo de abundância de recursos que marcou os primeiros anos desta década, investidores passaram a cobrar mais eficiência, previsibilidade e capacidade de geração de receita. O capital não desapareceu, mas ficou mais criterioso.

Para muitas empresas, vender uma operação ou se integrar a uma plataforma maior pode ser hoje um caminho mais viável do que captar uma nova rodada e continuar crescendo de maneira independente.

Ao mesmo tempo, para companhias mais capitalizadas, o cenário abre oportunidades. Negócios com bons produtos, equipes especializadas e dificuldades para financiar a próxima etapa de expansão podem se tornar ativos estratégicos — muitas vezes a valuations mais racionais do que aqueles praticados há alguns anos.

Para ecossistemas, ter compradores não basta  

Ecossistemas regionais amadurecem quando deixam de produzir apenas empresas em busca de investimento e passam a formar compradores capazes de gerar liquidez, reorganizar mercados e abrir novos caminhos de crescimento.

Ter consolidadoras locais importa. Elas ampliam as possibilidades de saída para empreendedores e investidores e podem manter parte da inteligência, das equipes e das decisões estratégicas próximas do ambiente em que esses negócios surgiram.

Mas seria simplista tratar cada aquisição como um sinal automático de fortalecimento do ecossistema. O avanço dos M&As também pode concentrar mercados e elevar barreiras para quem ainda está começando.

Há ainda um desafio operacional importante: anunciar uma compra é apenas a parte mais visível da estratégia. O teste real vem depois.

Integrar produtos, equipes, culturas organizacionais e carteiras de clientes sem perder eficiência costuma ser mais difícil do que concluir uma transação. Nem toda aquisição gera as sinergias esperadas. Nem toda ampliação de portfólio resulta em uma proposta mais clara para o mercado.

Ter compradores locais é um sinal relevante de maturidade. Mas um ecossistema saudável não pode depender apenas deles.

É preciso continuar produzindo novas empresas, capital para os primeiros estágios e condições para que bons negócios possam escolher entre vender, captar ou seguir crescendo por conta própria.

Talvez essa seja a próxima pergunta para quem acompanha o mercado de tecnologia em Santa Catarina.

Não apenas quais empresas serão compradas. 

Mas se o ambiente continuará capaz de formar as próximas compradoras.

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