Da inteligência artificial à manufatura avançada, da segurança pública às novas formas de morar, a maior economia de Santa Catarina cria uma infraestrutura para transformar problemas reais em pesquisa, talentos e novos negócios.
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Como Joinville está se tornando um laboratório de inovação aplicada

Da inteligência artificial à manufatura avançada, da segurança pública às novas formas de morar, a maior economia de Santa Catarina cria uma infraestrutura para transformar problemas reais em pesquisa, talentos e novos negócios. 

Uma indústria que precisa modernizar sua produção. Uma equipe policial diante de volumes crescentes de dados digitais. Pesquisadores tentando levar uma descoberta para além da universidade. Empresas interessadas em testar inteligência artificial, novos materiais ou modelos de atendimento em saúde.

À primeira vista, são desafios de setores pouco relacionados. Em Joinville, porém, eles começam a compartilhar uma mesma infraestrutura de conhecimento, tecnologia e experimentação.

É essa capacidade de aproximar problemas reais de pessoas preparadas para resolvê-los que ajuda a explicar o movimento em curso na cidade: além de reunir startups ou inaugurar laboratórios, Joinville procura criar condições para que empresas, pesquisadores, estudantes, empreendedores e instituições públicas desenvolvam projetos em conjunto.

Parte relevante dessa movimentação está concentrada no Ágora Tech Park, instalado dentro do Perini Business Park. O parque tecnológico reúne aproximadamente 150 operações, entre empresas, startups, laboratórios, centros de pesquisa e instituições de ensino. Ao redor dele, mais de 300 empresas movimentam cerca de R$ 12 bilhões por ano.

A principal vantagem está na proximidade: poucos metros podem separar uma demanda industrial, uma equipe de pesquisadores, uma empresa de software e um laboratório capaz de testar uma solução. A inovação deixa de depender apenas de encontros ocasionais e passa a fazer parte da rotina do território.

“O que estamos construindo é uma plataforma capaz de aproximar conhecimento e mercado. Os laboratórios, programas e projetos partem de desafios reais e criam condições para que empresas, pesquisadores e empreendedores desenvolvam soluções em conjunto. Mais do que ocupar espaços, queremos transformar essa proximidade em pesquisa aplicada, formação de talentos e novos negócios”, afirma  Fabiano Dell Agnolo, diretor executivo do Ágora Tech Park.

A economia real como ponto de partida

Joinville não tenta construir um ecossistema de inovação separado de sua base econômica. Parte das estruturas criadas nos últimos anos nasce justamente das demandas dos setores que já sustentam a região. É o caso da manufatura avançada. A cidade está inserida em uma cadeia que concentra mais de 300 ferramentarias e reúne conhecimento acumulado em engenharia, metalmecânica, automação e produção industrial. O desafio agora é incorporar tecnologias como gêmeos digitais, impressão 3D, simulação de processos e usinagem de alta precisão.

Inaugurado em março, o MLab – W2F foi desenvolvido pelo Ágora em parceria com a Walbert Ferramentaria, com investimento de R$ 5,6 milhões — R$ 4 milhões provenientes da Finep, por meio do programa Rota 2030. O laboratório integra o Centro de Excelência em Manufatura Avançada e Cluster Automotivo, projeto que prevê aproximadamente R$ 90 milhões em investimentos e já conecta 88 empresas e 13 instituições de ciência e tecnologia. A estrutura deverá incluir uma planta-piloto industrial inteligente e cinco laboratórios multiusuários.

“Estamos conectando indústria, tecnologia e conhecimento para desenvolver empresas mais competitivas, impulsionar a inovação e posicionar Santa Catarina em um novo patamar dentro da manufatura avançada na América Latina”, ressalta Edna Schmitt, conselheira de inovação na Walbert.

Problemas públicos também geram inovação

Nem todos os desafios vêm da iniciativa privada. Em janeiro, a Polícia Civil de Santa Catarina inaugurou no Ágora o PCSC LABTECH, primeiro laboratório avançado de análise e extração de dados da instituição. O centro reúne estruturas de cyberinteligência, combate à lavagem de dinheiro, análise de dados e tecnologia da informação para apoiar investigações de maior complexidade. A iniciativa mostra como uma infraestrutura de inovação também pode responder a demandas do poder público.

Segurança, saúde, mobilidade e gestão urbana produzem desafios que dificilmente serão resolvidos por uma única instituição. Exigem combinações de conhecimento jurídico, científico, tecnológico e operacional.

Na saúde, essa aproximação ocorre por meio de uma parceria entre o Ágora.Health e a organização social SAS Brasil. O Living Lab combina formação profissional, teleassistência, pesquisa e testes em ambiente real. Antes de chegar ao Sul, o modelo havia impactado mais de 25 mil pessoas e capacitado cerca de 3,2 mil profissionais em 30 cidades durante 2025. Em Joinville, o primeiro movimento foi preparar gestores para elaborar e implementar projetos de transformação digital no sistema de saúde. “A parceria com um polo de inovação como o Ágora é estratégica pela conexão com lideranças do setor”, destaca Sabine Zink, diretora e cofundadora da SAS Brasil. 

Quando a pesquisa encontra o mercado

Infraestrutura física, no entanto, não é suficiente. É necessário preparar pessoas para circular entre diferentes mundos — especialmente entre a pesquisa acadêmica e o mercado. Essa é a função do Ágora Experts: em junho, a quarta edição do programa reuniu 13 equipes formadas por pesquisadores e professores de universidades de Joinville, do Paraná e de outras regiões de Santa Catarina.

Os participantes trabalharam temas como validação, modelagem de negócios e desenvolvimento de projetos. A proposta não era transformar toda pesquisa em empresa, mas estimular os pesquisadores a identificar usuários, revisar premissas e compreender como uma descoberta pode gerar impacto fora da universidade.

Entre os projetos reconhecidos estavam o Starlight, da UFSC Joinville, que desenvolve uma tecnologia de desinfecção hospitalar por meio da luz, e o Steamulando Futuros, da Udesc, voltado à atração e à permanência de meninas nas áreas de ciência, tecnologia, engenharia, artes e matemática. “O programa nos trouxe a visão de negócio necessária para dar escala e perenidade a essas iniciativa. A competição nunca foi a principal. O verdadeiro prêmio foi o aprendizado e as conexões que fizemos”, comenta Joice Luiz Jeronimo, doutoranda em Computação Aplicada na Udesc CCT, que participou de um dos projetos finalistas.

Uma casa em permanente transformação

A inovação aplicada também pode chegar a setores menos associados aos parques tecnológicos. Previsto para o segundo semestre de 2027, o Ágora LIV será uma residência-modelo destinada a testar materiais, sistemas construtivos, eficiência energética, automação e novas configurações dos espaços domésticos.

A casa será concebida como uma estrutura em permanente atualização. A cada dois ou três anos, deverá passar por ciclos de retrofit, incorporando tecnologias e substituindo soluções que deixarem de responder às necessidades dos usuários.

Empresas, universidades, engenheiros, arquitetos e pesquisadores poderão observar, em escala real, como sistemas relacionados a energia, água, conforto ambiental, segurança, acessibilidade e trabalho híbrido funcionam de maneira integrada. Para empresas do setor de construção, arquitetura e tecnologia residencial, isso representa acesso a um ambiente de validação. Para estudantes e profissionais, a oportunidade de trabalhar em problemas que combinam engenharia, comportamento, sustentabilidade e design.

Um território capaz de atrair projetos

Um ambiente indutor de inovação precisa demonstrar capacidade de mobilizar recursos, formar profissionais, conectar instituições, atrair projetos e transformar problemas econômicos e sociais em agendas de desenvolvimento. Em Joinville, essa construção ocorre sobre uma economia diversificada, com indústrias, empresas de tecnologia, universidades e uma base crescente de novos negócios. A cidade já revelou startups de relevância naciona como Conta Azul, Asaas e PX, que cresceram a partir de desafios relacionados à gestão, aos pagamentos e à logística.

Isso também altera a forma como Joinville pode se apresentar para fora. A cidade não é apenas um mercado consumidor de tecnologia ou um polo industrial em busca de modernização. Pode se tornar um território de desenvolvimento e validação, onde empresas encontram demandas reais, pesquisadores acessam infraestrutura e profissionais participam de projetos capazes de gerar impacto.

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