Após 40 anos de expansão, setor de tecnologia de SC traça plano para buscar elite global
Estudo lançado pela Associação Catarinense de Tecnologia projeta R$ 238,9 bilhões em faturamento e 17,9% do PIB estadual em 2066, mas expõe gargalos como talentos, inovação e reconhecimento internacional. / Imagem: ChatGPT/TBD SC
Em 1986, quando a Associação Catarinense de Tecnologia surgiu em um condomínio de empresas no bairro universitário da Trindade, em Florianópolis, o Brasil vivia sob hiperinflação, baixa abertura econômica e políticas de reserva de mercado que limitavam a entrada de tecnologias estrangeiras. Naquele ambiente, seria difícil imaginar que, quatro décadas depois, o estado chegaria a quase 30 mil empresas de tecnologia, mais de R$ 42 bilhões em faturamento anual e 100 mil empregos diretos no setor.
É sobre essa trajetória — e sobre a ambição de ampliá-la nas próximas quatro décadas — que a entidade desenvolveu o estudo Efeito ACATE 2066, lançado no fim de semana, durante o evento de comemoração dos 40 anos da associação, em Florianópolis. Desenvolvido pela Dashcity (especializada em inteligência de dados para territórios) com apoio estatístico da Caravela Dados e Estatísticas, o estudo mensura o impacto econômico do segmento para as próximas décadas e se propõe ao desafio de projetar o estado entre os cinco maiores polos de inovação do planeta.
O relatório parte de uma base histórica concreta e avança para um exercício de prospectiva: a projeção central é que o setor de tecnologia de Santa Catarina chegue a 2066 com faturamento anual de R$ 238,9 bilhões e participação de 17,9% no PIB estadual.
“Quando olhamos para trás, vemos que o que parecia improvável se tornou realidade porque fomos capazes de construir juntos”, afirma Diego Brites Ramos, presidente da ACATE. “Santa Catarina tem as condições, a história e a cultura para ser uma referência mundial em inovação. Não é uma promessa de uma entidade, é um compromisso de um ecossistema inteiro.”

Diego Ramos, presidente da ACATE: “não é uma promessa de uma entidade, é um compromisso de um ecossistema”. / Foto: Toia Oliveira (Divulgação)
Mas entre a ambição projetada e a possibilidade de realizá-la há gargalos concretos. Um dos principais, e que não é exclusivo de Santa Catarina, é a formação de talentos. Ao longo do ciclo projetado, a meta estipulada no estudo é chegar a 304 mil empregos diretos, em uma rede de 1,4 milhão de postos em toda a cadeia produtiva catarinense.
“O crescimento do setor de tecnologia em Santa Catarina só será sustentável se conseguirmos formar, atrair e reter talentos na mesma velocidade em que as empresas crescem. Não existe transformação digital sem pessoas preparadas para conduzi-la”, afirma Moacir Marafon, vice-presidente de talentos da ACATE.
Top 5 global?
A ambição mais chamativa do documento é colocar Santa Catarina entre os principais polos globais de inovação nos próximos 40 anos, ainda que de maneira aspiracional. Isso significaria entrar em um clube hoje formado por regiões como Vale do Silício, Nova York, Londres, Tel Aviv Pequim e Boston, líderes do ranking da Startup Genome em 2025 — centros com alta densidade de capital, pesquisa, talento e capacidade de produzir empresas globais em escala.
Para organizar essa visão, o estudo divide os próximos 40 anos em oito ciclos de cinco anos, passando por agendas como inteligência artificial, computação quântica, convergência bio-digital, longevidade e economia espacial.
O documento também apresenta um índice, o IAE, composto por cinco dimensões — econômica, social, conectividade, inovação e reputação — e projeta sua evolução ao longo de oito ciclos de cinco anos, de 2026 a 2066. Pela modelagem apresentada, Santa Catarina sairia de 65,5 pontos em 2026 para 87,5 em 2066, numa trajetória que a levaria da condição de “ecossistema maduro” a um patamar descrito como “Top 5 global”.

As oito ondas quinquenais do estudo, desenvolvido pela Dashcity e Caravela, que projeta o futuro do setor de tecnologia em SC.
O IAE ajuda ainda a localizar onde estariam os maiores desafios. Em 2026, os melhores desempenhos projetados aparecem em conectividade e dimensão social, enquanto inovação e reputação partem de níveis mais baixos. Um dos indicadores é o volume de unicórnios, empresas inovadoras com valor de mercado superior a US$ 1 bilhão: hoje, Santa Catarina não conta com nenhuma empresa desse porte, embora a perspectiva traçada pelo estudo seja de 168 unicórnios daqui a quatro décadas.
Em linhas gerais, o estudo aponta que Santa Catarina já construiu base empresarial, articulação institucional e massa crítica relevante, mas ainda precisa avançar naquilo que costuma separar ecossistemas maduros de ecossistemas globais: mais pesquisa e desenvolvimento, mais propriedade intelectual, mais scale-ups de alcance internacional e reconhecimento externo consistente.
Se isso será suficiente para levar o estado ao Top 5, ao Top 10 ou mesmo ao Top 20 global é impossível dizer agora. Mas, em termos de desenvolvimento social e econômico, ambição e planejamento costumam ser parte obrigatória do jogo.
