Florianópolis entra em ranking latino-americano de ecossistemas, mas desafio agora é provar escala global
Relatório do Startup Genome coloca a capital catarinense no top20 regional e expõe uma nova etapa: transformar comunidade, talentos e adoção tecnológica em empresas com ambição internacional. / Foto: Gabriel Rodrigues (Unsplash)
Florianópolis voltou a aparecer no mapa internacional dos ecossistemas de startups. No Global Startup Ecosystem Report 2026, estudo anual produzido pelo Startup Genome, a capital catarinense aparece na 16ª posição entre os principais ecossistemas de startups da América Latina, em uma lista liderada por São Paulo (que ocupa o 37o. lugar em nível global) e que inclui ainda Rio de Janeiro (6o. Latam), Curitiba (7o.), Belo Horizonte (8o.), Porto Alegre (9o.), Recife (13o.) e Uberlândia (17o.) entre os representantes brasileiros.
Ou seja: as maiores cidades do pais permanecem atrás de metrópoles latinas como Cidade do México, Santiago/Valparaiso, Bogotá e Buenos Aires.
O ranking é relevante, mas não pelo motivo mais óbvio. Para Florianópolis, o caminho para ampliar sua relevância internacional é: como transformar uma comunidade reconhecida pela densidade de talentos, pela cultura empreendedora e pela articulação institucional em startups capazes de competir em mercados maiores.
O recorte nacional do relatório aponta esse paradoxo. O Brasil aparece como uma economia de inovação madura e geograficamente diversa, mas ainda enfrenta um limite estrutural quando comparado aos ecossistemas globais mais competitivos: a dificuldade de converter bons ativos locais em alcance internacional, capital de crescimento e grandes saídas.

Para Alexandre Souza, gerente de Inovação do Sebrae Santa Catarina, o gargalo não está necessariamente na capacidade tecnológica ou na adoção de novas ferramentas. “O Brasil tem startups de IA competitivas, empreendedores experientes e um mercado doméstico grande o suficiente para crescer por anos sem cruzar uma única fronteira. Essa é exatamente a armadilha. O que vemos em ecossistemas como Florianópolis e São Paulo é que a adoção de IA não é o gargalo. A ambição é.”
Na América Latina, o estudo mostra que o financiamento de rodadas Série A caiu 30% entre 2024 e 2025. Em contrapartida, os investimentos em empresas de estágio avançado cresceram 39% no mesmo período. Já as operações de saída avançaram: apenas no primeiro trimestre de 2026, a América Latina registrou um volume de exits próximo ao recorde histórico. As operações avaliadas acima de US$ 50 milhões superaram, em apenas três meses, todo o resultado de 2025.
O estudo foi produzido a partir da análise de mais de 5,5 milhões de startups em mais de 350 ecossistemas globais.
Da consolidação nacional ao desafio externo
Florianópolis construiu, ao longo das últimas décadas, uma imagem forte como polo de tecnologia, com presença de universidades, entidades setoriais, empresas de software, startups B2B, fundos, aceleradoras e uma comunidade empreendedora bastante conectada. Esse conjunto ajuda a explicar por que a capital catarinense aparece entre os ecossistemas latino-americanos monitorados pelo Startup Genome. Mas também cria uma espécie de zona de conforto.
“O mercado brasileiro é grande o suficiente para ser uma desculpa, e esse é o verdadeiro desafio a superar”, conclui Alexandre.
Na edição 2026, o relatório destaca a IA como uma tecnologia capaz de impulsionar a expansão de diferentes setores, e aumentou a relevância do fator “AI-Native Cluster” no ranking global.
Para Florianópolis, isso abre uma oportunidade e um alerta. A cidade tem histórico em software, SaaS, automação, dados, educação, fintechs e soluções B2B — áreas que podem ser diretamente impactadas pela nova onda de IA. Mas a simples adoção de ferramentas não será suficiente. As startups locais serão avaliadas pelo potencial de construir produtos, modelos de negócio e estratégias comerciais capazes de disputar mercados além da base nacional.
