Capital global busca novos destinos — e América Latina pode entrar no radar dos fundos de tecnologia
Encontro em Florianópolis reuniu lideranças locais e especialistas para discutir internacionalização, investimentos e o novo ciclo de M&A em tecnologia. / Fotos: The Builders
Guerras, tensões geopolíticas e a corrida global pela inteligência artificial começam a redesenhar o mapa dos investimentos em tecnologia. Em meio a esse movimento, a América Latina pode ganhar espaço no radar de fundos internacionais interessados em diversificar a alocação de capital e identificar empresas com potencial de escala.
A avaliação foi apresentada pelo norte-americano Steve Jones, diretor regional para a América Latina do Corum Group, durante a quinta edição do Encontro do Ecossistema de TI da Grande Florianópolis, promovido pela Associação Catarinense de Tecnologia nesta terça-feira (2), no CIA Primavera, na Capital.
Especializado em fusões e aquisições (M&A) de empresas de software e tecnologia, Jones afirmou que os principais fatores de preocupação neste setor são as disrupções geopolíticas, o risco de crises cambiais, o elevado endividamento global e a persistência de pressões inflacionárias.
Esse conjunto de fatores pode influenciar a distribuição internacional dos investimentos. Em conversas recentes com grandes fundos, relatou o executivo, gestores estariam avaliando reduzir a concentração de recursos em regiões mais diretamente expostas à instabilidade global, especialmente Europa e Oriente Médio, e buscar novas oportunidades de alocação.
A América Latina pode ganhar espaço nesse movimento.
Jones também mostrou que o volume de capital disponível entre fundos de private equity e compradores estratégicos aumentou quase 60% de 2024 para 2025, ao mesmo tempo que empresas buscam ativos capazes de fortalecer sua posição em áreas como inteligência artificial, dados, segurança, automação e infraestrutura digital.
Mas a possível mudança não representa uma transferência automática de recursos para a América Latina. Contudo, abre uma janela relevante para empresas capazes de apresentar produtos competitivos, governança, ativos estratégicos e condições reais de crescimento internacional.
O próximo estágio do setor catarinense
Antes de ampliar a discussão para o mercado internacional, o encontro recuperou alguns dos desafios que acompanham o amadurecimento do setor de tecnologia em Santa Catarina.
Ex-presidente da ACATE entre 2008 e 2012, Rui Luiz Gonçalves chamou a atenção para a escassez de executivos preparados para liderar empresas em expansão. Negócios de maior porte conseguem atrair profissionais experientes, ainda que a custos elevados. Para empresas médias, a dificuldade tende a ser maior, o que fez Gonçalves defender a criação de uma escola de formação de C-levels para atender a essa nova etapa do ecossistema.
Presidente da ACATE, Diego Ramos acrescentou que o próximo ciclo exige também maior ambição internacional. Em um país ainda pouco integrado ao comércio global (apenas 2% das transações mundiais envolvem o Brasil), vender para outros mercados continua sendo uma barreira relevante. O desafio envolve produto, equipe, domínio comercial, canais de distribuição e disposição para testar soluções em ambientes mais competitivos.

Captação exige preparação — e respeito ao estágio da empresa
O encontro também contou com o cofundador e general partner da Indicator Capital, o brasileiro Fábio Iunis de Paula, que complementou a análise com uma visão sobre captação de recursos fora do Brasil.
Com longa trajetória no setor de tecnologia e investimentos – ele esteve na equipe da Intel Capital quando a gestora aportou recursos na catarinense Pixeon – Iunis defendeu uma abordagem gradual: empresas interessadas em captar recursos precisam compreender seu estágio de maturidade antes de abordar investidores. Buscar grandes fundos globais sem produto validado, modelo de negócio consistente e capacidade comprovada de execução, segundo ele, “não é ousadia, é desperdício”.
Exemplos de empresas tech brasileiras apresentados mostraram que não existe uma rota única para a internacionalização: algumas consolidam primeiro sua posição no mercado brasileiro antes de buscar expansão externa. Outras desenvolvem desde cedo uma operação voltada a mercados mais competitivos. “Fazer uma captação global é o caminho mais exigente, mas esse capital de fora é o que pode escalar a empresa localmente”, resumiu.
Nossa análise | Uma janela não é uma garantia
O encontro colocou lado a lado duas realidades.
Santa Catarina construiu, ao longo de quatro décadas, um setor de tecnologia com densidade empresarial, instituições representativas e empresas capazes de competir nacionalmente. Ao mesmo tempo, parte relevante desse mercado ainda enfrenta dificuldades para formar executivos, acessar crédito e transformar internacionalização em uma estratégia consistente.
A possível realocação de capital apresentada por Steve Jones abre uma discussão importante: em um mundo mais instável, fundos internacionais podem buscar novos destinos para seus investimentos e a América Latina tem condições de disputar uma parcela desses recursos.
A questão para o ecossistema brasileiro (e catarinense) é: quantas empresas estão preparadas para transformar competência técnica em escala global? E quantas sabem identificar, organizar e apresentar os ativos estratégicos que construíram ao longo de sua trajetória?
Afinal, janelas de oportunidade não permanecem abertas indefinidamente.
