Economia Criativa: como estruturar um arranjo territorial de negócios e inovação
A capacidade de transformar cultura, conhecimento e expressão simbólica local em bens e serviços com alto valor econômico é uma alternativa consistente de diferenciação. / lmagem: ChatGPT/The Builders SC
Por Marcus Rocha, autor do livro “Territórios da Inovação” e Coordenador do Programa Florianópolis Cidade Criativa UNESCO
A Economia Criativa ocupa, de modo crescente, posição relevante nas estratégias de desenvolvimento territorial. Em territórios que enfrentam pressões da competitividade global — padronização de produtos, produção escalável, substituição de postos de trabalho por tecnologias, entre outros — a capacidade de transformar cultura, conhecimento e expressão simbólica em bens e serviços com alto valor econômico representa uma alternativa consistente de diferenciação. Não se trata de modismo nem de aposta ingênua: trata-se de reconhecer que há campos de atividade econômica onde a identidade local é, ela própria, a principal vantagem competitiva dos empreendimentos.
A literatura internacional sobre o tema indica duas grandes tradições conceituais. A escola norte-americana tende a ampliar o conceito de Economia Criativa para abarcar toda atividade que empregue intensivamente criatividade, talento e propriedade intelectual — incluindo publicidade, arquitetura, software, design e serviços baseados em conhecimento. A escola europeia, por sua vez, dá ênfase aos setores culturais e simbólicos, vinculando-os à identidade territorial e ao patrimônio histórico – as chamadas “indústrias culturais”. Na prática, as políticas e estratégias de desenvolvimento que obtêm resultados mais consistentes combinam elementos de ambas as abordagens, equilibrando competitividade econômica e valorização cultural.
Para além da discussão conceitual, o que se observa nos territórios que avançam na Economia Criativa é a presença de estruturas cooperativas – ou ecossistêmicas – que vão muito além de iniciativas isoladas: os clusters. São arranjos que concentram competências, compartilham infraestrutura e estimulam a circulação de conhecimento entre empreendimentos que, individualmente, teriam dificuldades para crescer e se projetar externamente. A pergunta que se coloca, portanto, não é se um território deve ou não estruturar um cluster de Economia Criativa, mas como fazer isso com consistência e viabilidade.
Aqui é proposto um percurso analítico e prático para essa questão. O ponto de partida é a necessidade de identificar o campo criativo mais estratégico para o território, antes de qualquer esforço de estruturação. A seguir, são apresentados critérios para a construção de um cluster de negócios e inovação que escolha este campo criativo e que promova um desenvolvimento sustentável — econômico, social, urbano e ambiental — com foco em uma vocação clara. O argumento central é que a especialização é condição para a efetividade: clusters genéricos tendem ao esvaziamento; clusters focados em uma vocação criativa real têm maior capacidade de engajar atores, atrair recursos e gerar resultados.

Por que criar um um cluster criativo?
A resposta a essa pergunta começa com uma limitação observada nos modelos tradicionais de governança de ecossistemas de inovação. Esses modelos costumam organizar os atores do ecossistema por categorias institucionais da conhecida “quádrupla hélice” — empresas, governo, academia, sociedade civil — sem estabelecer uma conexão direta com as vocações econômicas do território. O resultado é uma governança que permanece, em grande medida, intangível: os participantes têm dificuldade de identificar benefícios concretos e o engajamento tende a se diluir ao longo do tempo.
A experiência de territórios que avançaram mais consistentemente em seus ecossistemas de inovação aponta para um caminho diferente: a organização de governanças com foco setorial, estruturadas a partir das principais vocações econômicas da região e orientadas ao desenvolvimento de empreendimentos inovadores. Quando os atores das diferentes categorias do ecossistema local se reúnem em torno de um escopo econômico bem definido, a proposta de valor do arranjo coletivo torna-se mais clara. Com isso, o engajamento encontra bases mais sólidas.
No campo da Economia Criativa, essa lógica se aplica com igual força. Diferentes campos criativos, tais como gastronomia, audiovisual, design, artesanato, música, jogos digitais, literatura, artes midiáticas, entre outros, possuem dinâmicas produtivas, cadeias de valor e perfis de atores distintos. Tentar abarcar todos simultaneamente, sem priorização, produz dispersão. Um cluster orientado a um campo criativo específico, ancorado na vocação real do território, tem condições de construir densidade de relações, acumular competências e projetar a identidade local de forma coerente.
Além disso, há uma razão estrutural que distingue os empreendimentos criativos dos demais e que justifica a adoção de um formato coletivo organizado: a inovação é intrínseca à sua natureza. Negócios da economia criativa introduzem continuamente novos formatos, experiências diferenciadas, modelos de distribuição e formas de engajamento com públicos, para se manterem competitivos, especialmente nos tempos atuais de concorrência globalizada e mudanças aceleradas. Essa capacidade inovadora se beneficia das conexões criadas por um arranjo colaborativo. A troca entre pares com desafios em comum, o acesso compartilhado à infraestrutura, a conexão com instituições de ensino e pesquisa e a visibilidade coletiva que um cluster proporciona ampliam o potencial individual de cada empreendimento.
A priorização do campo criativo: por onde começar
O primeiro passo para a criação de um cluster local de Economia Criativa é identificar o campo criativo mais estratégico para o território. Essa escolha não deve ser feita com base em preferências subjetivas ou modismos setoriais, mas a partir de uma análise estruturada das condições locais. Alguns critérios orientam essa avaliação.
Presença e densidade de empreendimentos ativos. O campo criativo com maior potencial de cluster é, em geral, aquele onde já existem empreendimentos em funcionamento, mesmo que de pequeno porte e com baixa organização coletiva. A presença de empreendedores atuantes indica que existe demanda, há algum grau de conhecimento acumulado e os desafios práticos já são conhecidos. Um mapeamento inicial dos negócios criativos existentes no território, considerando dimensões como campo, porte, tempo de operação, perfil do empreendedor e localização, fornece as evidências necessárias para a tomada de decisão.
Conexão com a identidade cultural do território. Campos criativos que expressam elementos culturais específicos da região — tradições, saberes, materiais, manifestações — tendem a proporcionar condições para o desenvolvimento de competitividade de forma mais sustentada. Essa ancoragem cultural é difícil de replicar por concorrentes externos, o que representa vantagem competitiva real. Um território com forte tradição cerâmica, por exemplo, tem condições de estruturar um cluster de artesanato e design que vai além da oferta de produtos decorativos, incorporando narrativa histórica, técnica específica e relação com produtores locais de matéria-prima.
Potencial de geração de valor econômico. A Economia Criativa não se sustenta apenas pelo discurso cultural ou social. A dimensão econômico-financeira é indispensável: sem viabilidade econômica, não há como garantir a continuidade dos empreendimentos, pois sem geração de renda não haverá os recursos necessários para preservar a própria cultura que se quer valorizar. Por isso, o campo criativo prioritário deve apresentar, além de relevância cultural, potencial real de mercado, seja no âmbito local, regional, nacional, ou até mesmo internacional. Esse potencial pode ser avaliado a partir de dados de consumo, fluxo turístico, tendências de demanda e análise de mercados similares em outros territórios.
Disponibilidade de capital humano qualificado. A estruturação de um cluster requer pessoas com competências técnicas e artísticas no campo criativo escolhido, mas também profissionais com capacidade de gestão, empreendedorismo e articulação em rede. A avaliação da disponibilidade e da qualidade do capital humano local é critério relevante para a priorização e deve considerar a presença de cursos de formação, programas de capacitação e talentos com trajetória reconhecida.
Capacidade de articulação com outros setores econômicos. Campos criativos que funcionam de forma transversal, integrando-se a outros setores econômicos do território, tendem a gerar cadeias produtivas mais robustas. O design, por exemplo, pode se conectar a setores industriais e artesanais. A gastronomia articula agricultura familiar, serviços de hospitalidade e turismo. O audiovisual pode ser mobilizado por setores como turismo, tecnologia e educação. Essa transversalidade amplia o impacto do cluster e facilita a formação de redes com atores de diferentes origens.
Presença de infraestrutura de inovação compatível. A existência de instituições de ciência, tecnologia e inovação que possam contribuir para o desenvolvimento do campo criativo escolhido é fator que favorece a estruturação do cluster, apesar de não ser obrigatório. Universidades com cursos relevantes, centros de pesquisa com linhas de trabalho alinhadas e habitats de inovação com foco na economia criativa ampliam a base de conhecimento disponível e facilitam conexões entre empreendedores e pesquisadores.
Importante destacar que esses critérios são um guia e não precisam ser satisfeitos de forma simultânea e completa.
Territórios em estágio inicial de organização do seu ecossistema criativo podem identificar o campo prioritário a partir dos critérios com maior aderência à realidade local, construindo gradualmente as condições que ainda estão ausentes. O que se busca evitar é a escolha do campo criativo por razões circunstanciais, como uma oportunidade pontual de financiamento, ou a preferência pessoal de uma liderança, sem ancoragem nas condições estruturais econômicas do território.
