M&A: como Selbetti e Unifique colocam SC em destaque entre os compradores de tecnologia no Brasil
Em um mercado mais seletivo e com maior presença estrangeira, as duas catarinenses avançam por estratégias distintas: uma compra escala, rede e território; a outra, portfólio, tecnologia e acesso a clientes.
O mercado brasileiro de fusões e aquisições em tecnologia perdeu volume, mas ganhou compradores mais seletivos, recorrentes e estratégicos. Como The Builders mostrou ao analisar o M&A Deals Report 2026, da Questum, foram mapeadas 87 transações no primeiro semestre, 33% menos do que no mesmo período de 2025. Ao mesmo tempo, os grupos internacionais chegaram a 21% das operações e ampliaram sua presença ao longo dos últimos semestres.
Nesse cenário mais disputado, duas empresas de Santa Catarina conquistaram espaço entre as principais compradoras do país. A Unifique, fundada em Timbó, liderou o ranking de compradores seriais com quatro transações, ao lado da Vela LatAm, plataforma ligada à canadense Constellation Software. Logo atrás veio a Selbetti, de Joinville, com três negócios, o mesmo número da europeia Visma.
O dado ajuda a medir o tamanho do movimento: Selbetti e Unifique deixaram de ser apenas empresas em expansão para se tornar consolidadoras capazes de disputar ativos e estruturar aquisições recorrentes num mercado dominado por grupos globais especializados em M&A.
As duas compram com frequência, mas seguem caminhos diferentes.
Unifique: comprar densidade, rede e território
Para a Unifique, o M&A funciona como extensão da estratégia de expansão regional. Em um setor que depende de infraestrutura pesada, comprar uma operação já instalada costuma sair mais barato do que construir rede e conquistar assinantes cidade por cidade.
Um dos negócios mais relevantes do semestre foi a aquisição da iSUPER Telecomunicações, provedora com cerca de 24 mil acessos de fibra óptica em cidades do Paraná. Além dos clientes, a operação amplia a infraestrutura de transporte de dados necessária às estações 5G e reforça a presença da companhia num estado estratégico para seu crescimento.
Outra transação foi a compra da carteira e dos ativos da G9 Telecomunicações, de Pomerode, por R$ 6,33 milhões. O negócio soma quase 3 mil acessos de fibra e prevê a locação de infraestrutura com opção de compra futura, capaz de atender tanto a banda larga fixa quanto a expansão móvel.
A lógica da Unifique vai além do faturamento somado: a empresa busca ativos que aumentem a utilização da rede, reduzam o custo de expansão e elevem a densidade de clientes nas regiões onde já opera ou pretende chegar.
Selbetti: aquisições para construir uma plataforma
A Selbetti segue outro caminho. A companhia de Joinville deixou para trás o perfil concentrado em impressão e outsourcing e hoje se posiciona como plataforma de tecnologia corporativa. Suas aquisições miram lacunas do portfólio, conhecimento especializado e capacidade de atender o mesmo cliente em diferentes frentes.
No primeiro semestre, a empresa comprou a Guiando, especializada em gestão de despesas de telecomunicações, e a carteira de clientes da Minascopy, focada em outsourcing de impressão e gestão documental. Juntas, as operações somam cerca de R$ 40 milhões em receita anual e mais de 2.050 clientes, incluindo mercados como Argentina, Chile e Uruguai.
Foram a 46ª e a 47ª transações da Selbetti desde 2014. Para 2026, o plano prevê cinco novas aquisições e cerca de R$ 100 milhões investidos com recursos próprios.
Essa recorrência mostra uma empresa que transformou o M&A em competência interna. Em vez de esperar por oportunidades excepcionais, a Selbetti mantém uma tese contínua para mapear negócios complementares, incorporar equipes e distribuir novas soluções pela base comercial já estabelecida.
Dois perfis do buy side catarinense
Unifique e Selbetti representam caminhos distintos de consolidação. Uma compra densidade operacional: redes, infraestrutura, cobertura e carteiras de assinantes. A outra compra amplitude e profundidade: software, especialização, relacionamento comercial e novas capacidades.
O ponto em comum é a disciplina. Ambas dependem menos de oportunidades isoladas e mais de processos permanentes de prospecção, negociação e integração — o que separa os compradores seriais dos demais e permite manter o ritmo mesmo quando o mercado reduz volume e eleva a régua das transações.
Esse movimento reposiciona Santa Catarina no mapa da tecnologia brasileira. O estado já é reconhecido pela formação de startups que viram alvo de investidores; Selbetti e Unifique acrescentam outra camada a essa narrativa, a de companhias locais com capital, capacidade de gestão e ambição suficientes para liderar processos de consolidação.
